Financiamento responsável: como os bancos podem integrar ESG nos processos de avaliação de crédito

Financiamento responsável: como os bancos podem integrar ESG nos processos de avaliação de crédito

Práticas sustentáveis de uma empresa contribuem diretamente em impactos positivos na sociedade. Veja como o financiamento responsável gera valor à marca 

Nos últimos anos, a sigla ESG ganhou destaque no mundo dos negócios e investimentos. Isso porque a crescente conscientização sobre questões como mudanças climáticas, desigualdade social e transparência empresarial impulsionou uma mudança nas expectativas sobre como as empresas devem operar.

Aliás, os bancos têm papel fundamental nessa transformação. Afinal de contas, por meio de suas atividades de financiamento, essas instituições têm o poder de influenciar positivamente o comportamento corporativo e incentivar práticas responsáveis. Integrar os critérios ESG na avaliação de risco de crédito é uma forma de gerar impactos positivos para a sociedade.

Interessou-se pelo assunto e quer saber mais sobre o financiamento responsável? Continue a leitura porque preparamos um artigo bem rico sobre o assunto!

Em primeiro lugar, o que é ESG?

De maneira resumida, ESG é a sigla para “Environmental, Social e Governance” — em português Ambiental, Social e Governança. Na prática, são critérios usados para medir e avaliar a sustentabilidade e o impacto social de uma empresa. Saiba mais sobre cada inicial:

  • E (environmental ou meio ambiente): práticas ambientais para minimizar o impacto negativo que as atividades empresariais causam no planeta. Por exemplo: gerenciamento de recursos naturais, redução de emissões de carbono, gestão de resíduos, uso sustentável de recursos hídricos, proteção da biodiversidade, eficiência energética, construções verdes e por aí vai;
  • S (social): critérios que determinam como a empresa gerencia suas relações com funcionários, fornecedores, clientes, comunidades e demais stakeholders. Isso envolve práticas relacionadas a direitos humanos, condições dignas de trabalho, diversidade e inclusão, responsabilidade social corporativa etc.;
  • G (governance ou governança): estruturação e processos de governança corporativa, como independência do conselho de administração, transparência, prestações de contas, remuneração dos executivos, proteção dos direitos dos acionistas e mais.

Por que as empresas devem adotar os critérios ESG?

Por uma simples questão de sobrevivência. Afinal de contas, essa é uma demanda da própria sociedade.

Uma pesquisa realizada pela Associação Paulista de Supermercados (APAS), por exemplo, revelou que 95% dos brasileiros preferem marcas que investem em práticas sustentáveis. Além disso, 64% dos respondentes disseram que já deixaram de comprar de marcas com histórico de comportamento antiético.

Aliás, essa mudança de comportamento envolve o mercado com um todo. Apesar das limitações financeiras dos consumidores das classes C, D e E, por exemplo, cerca de 70% estão dispostos a pagar mais caro por marcas que apoiam causas ambientais. Os dados são de um estudo da PwC e ainda revelam que 69% dos brasileiros estão inclinados a gastar mais de marcas que investem em causas sociais.

Nesse contexto, podemos concluir que empresas que não adotarem práticas sustentáveis e socialmente responsáveis podem desaparecer em um futuro não muito distante.

Sendo assim, implementar a agenda ESG na sua empresa traz uma série de benefícios, como:

Qual é o papel dos bancos na agenda ESG?

Veja bem: os bancos são instituições vitais para a economia. Afinal de contas, é por intermédio deles que temos acesso a serviços financeiros importantes, como pagamentos, saques, cartões de débito e crédito, PIX, financiamentos e por aí vai. São soluções essenciais para realização de transações comerciais e pessoais.

Além dessas funções vitais para economia, os bancos também são grandes aliados na promoção da agenda ESG. Entenda as razões!

Financiamento responsável

Os bancos são intermediários financeiros que canalizam recursos de poupadores para investidores. Logo, eles desempenham uma função vital no financiamento do crescimento econômico.

A grande questão aqui é que eles podem incluir critérios ambientais, sociais e de governança na hora de ceder crédito. Ou seja, com a restrição, apenas empresas responsáveis podem ter acesso a financiamento para diversos fins. Essa limitação força, de alguma forma, as empresas a adotarem práticas responsáveis.

Aliás, uma pesquisa realizada pela Sherlock Communications mostrou que os consumidores esperam essa postura dos bancos. O levantamento foi feito com 3.200 pessoas do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru e revelou que:

  • 80% dos latino-americanos acreditam que os bancos devem contribuir com causas ambientais;
  • 90% dos brasileiros esperam punições para empresas que não tratam bem o meio ambiente;
  • 83% dos brasileiros mudariam de banco se soubessem que o seu dinheiro estava sendo investido em empresas envolvidas com desmatamento;
  • 80% dos brasileiros abandonariam um banco que investe em empresas envolvidas em desastres ambientais;
  • 89% dos brasileiros trocariam de instituição financeira caso a atual esteja dando aporte financeiro para empresas envolvidas no crime organizado.

Conformidade legal

O Banco Central do Brasil (BCB) publicou uma série de normas e resoluções para que os riscos sociais e ambientais fizessem parte da rotina das instituições financeiras. Sendo assim, adotar e usar os critérios ESG tornou-se uma questão legal.

Esse é o caso do crédito rural. Para conseguir empréstimo ou financiamento, a empresa solicitante precisa atender a uma série de requisitos. Por exemplo: o empreendimento não pode estar inserido em área de conservação, em terras ocupadas, nem tituladas por remanescentes das comunidades quilombolas. Além disso, se a empresa tiver histórico de casos de análogos à de escravos, o crédito também não será concedido.

Aliás, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também institui algumas regras nesse sentido. De acordo com o Normativo 26/2023, frigoríficos e matadouros precisarão investir em sistemas de rastreabilidade para comprovar a procedência do gado. Em caso de animais provenientes de áreas desmatadas ilegalmente, a partir de 2026, os bancos assumiram o compromisso de negar o empréstimo.

De toda forma, além de proibições em casos específicos, os bancos ainda podem avaliar esses impactos sociais e ambientais para determinar a taxa de juros. Dessa forma, além de dificultar o acesso, os empresários podem ser desencorajados pelo crédito caro demais.

Vale a leitura: Seu consumo de carne bovina é influenciado pelo desmatamento da floresta Amazônica?

Inovação

Ao integrar critérios ambientais, sociais e de governança, as empresas não apenas contribuem para um futuro mais sustentável, mas também descobrem novas oportunidades de negócio.

A inovação impulsionada pela agenda ESG está transformando indústrias, criando novos produtos e serviços, melhorando processos operacionais e fortalecendo modelos de negócios sustentáveis. Tudo isso resulta em benefícios econômicos, sociais e ambientais a longo prazo. E como os bancos são catalisadores dessa transformação, eles também contribuem para a inovação nas empresas.

Cadeia de suprimentos sustentável

Ao exigir padrões ESG para uma empresa, os bancos contribuem para uma espécie de círculo virtuoso. Afinal de contas, além de adotar práticas sustentáveis para a própria marca, o empreendimento precisa repensar toda a cadeia de suprimentos, incentivando também os fornecedores a adotarem a agenda ESG.

Aliás, esse assunto tem tudo a ver com outro artigo do blog. Saiba mais: Economia circular — entenda o que é, suas características e benefícios

Transparência

A transparência é outra consequência positiva da promoção da agenda ESG. Isso porque os bancos podem exigir que as empresas sejam transparentes, publiquem relatórios anuais de sustentabilidade e divulguem informações relevantes ao público interessado.

Vale a leitura: Como transformar a transparência com clientes em estratégia de marca?

Como são integrados os critérios ESG na avaliação de risco de crédito?

A avaliação de risco de crédito tradicional você já conhece, não é mesmo? Só para esclarecer, geralmente, as instituições financeiras focam em fatores financeiros, como histórico de crédito, fluxo de caixa, plano de negócios, entre outros.

No entanto, a incorporação de critérios ESG pode fornecer uma visão ainda mais abrangente dos riscos e oportunidades associados a um empréstimo. Aliás, a exigência extra é benéfica para os bancos.

Afinal de contas, empresas com práticas ESG sólidas tendem a ser mais resilientes e menos suscetíveis a riscos regulatórios, ambientais e sociais. Logo, além de contribuir para a economia e para a sociedade, empresas responsáveis têm melhores condições de pagar as parcelas do empréstimo no prazo.

A seguir, vamos listar alguns aspectos importantes para as instituições financeiras observarem na hora de integrar os critérios ESG na avaliação de risco de crédito. Confira!

Modelos de avaliação ESG

Os modelos de avaliação de risco ESG são ferramentas essenciais para os bancos integrarem critérios de sustentabilidade nas suas decisões de crédito. Estes modelos permitem uma análise mais precisa e holística dos riscos associados aos tomadores de crédito, considerando também aspectos ambientais, sociais e de governança.

Vale até criar um checklist para avaliar:

  • pegadas de carbono e iniciativas da empresa para neutralizá-las;
  • práticas de trabalho justas, como boas condições de trabalho, respeito aos direitos trabalhistas, iniciativas para garantir a saúde e bem-estar dos colaboradores etc.;
  • diversidade e inclusão;
  • estrutura de governança
  • ética, códigos de conduta, programas de compliance, medidas anticorrupção e mais;
  • conformidade legal.

Capacitação dos colaboradores

Para implementar a agenda ESG, é fundamental que os colaboradores saibam muito bem como funcionam as regulamentações ambientais, os direitos dos trabalhadores e a governança corporativa. E para passar esse conhecimento a eles, é necessário investir em treinamentos.

Só para esclarecer, os programas de capacitação devem ser baseados em educação contínua para o desenvolvimento de habilidades específicas. Além de manter os profissionais atualizados quanto aos marcos regulatórios mais recentes, os treinamentos periódicos são importantes para ensinar os funcionários como avaliar corretamente os riscos ESG e integrá-los nas decisões de crédito.

Dados e análise

Ferramentas de análise de dados permitem coletar, analisar e interpretar uma ampla gama de dados ESG, proporcionando uma avaliação mais precisa e eficiente dos riscos e oportunidades associados aos tomadores de crédito. Sendo assim, vale a pena investir em tecnologias bancárias específicas.

Você pode usar ferramentas de big data, por exemplo, para coletar e analisar dados de emissões de carbono das empresas, avaliando o impacto das mudanças climáticas nos riscos de crédito.

Outra dica legal é criar um sistema de pontuação para padronizar e escalar as avaliações de risco de crédito. Seria algo semelhante ao score de crédito, mas voltado para a agenda ESG. Nesse contexto, é necessário definir pesos para cada critério e determinar qual é a pontuação ideal para a concessão de crédito.

Veja também: Mudança na coleta de dados do Google Analytics.

Linhas de crédito específicas

Se você instalar placas de energia solar na sua casa, por exemplo, vai gastar um pouco mais hoje, mas economiza no longo prazo, não é mesmo? Pois bem, investir em práticas sustentáveis é financeiramente econômico para as empresas. No entanto, além do alto investimento inicial, os resultados não costumam ser imediatos.

Sendo assim, vale criar linhas de crédito específicas para incentivar a implementação da agenda ESG nas empresas. Além do mais, é legal pensar em condições favoráveis de financiamento, como taxa de juros reduzida, prazo mais longo e até suporte técnico e consultoria em ESG.

Quais são os principais desafios na Implementação de ESG?

Apesar de ser bem interessante na teoria, aplicar os critérios ESG na análise de crédito não é uma tarefa fácil. Afinal de contas, existem diversos desafios relacionados a questões operacionais, financeiras, culturais e até regulatórias. Por exemplo:

  • padronização: a falta de padronização nas métricas e relatórios dificulta a comparação entre empresas e setores;
  • complexidade regulamentar: como esse é um assunto novo, as regulamentações estão em constante evolução. Além disso, as regras podem variar entre países e regiões, dificultando a operação das multinacionais;
  • cultura organizacional: integrar critérios ESG requer uma mudança drástica na organização, com o compromisso de todos os níveis da empresa, desde a alta administração até os funcionários de linha de frente. E sabemos muito bem que mudar a cultura de uma empresa não é nada fácil.

Conclusão

Por fim, a integração de critérios ESG na avaliação de risco de crédito pelos bancos é crucial para promover financiamentos responsáveis e incentivar práticas empresariais sustentáveis. Essa abordagem permite que as instituições financeiras influenciem positivamente o comportamento corporativo, apoiando empresas que adotam práticas ambientais e sociais responsáveis. Além disso, a adoção de critérios ESG contribui para a resiliência e sustentabilidade a longo prazo das empresas e da economia, reforçando a importância de um sistema financeiro comprometido com a agenda.

Gostou do nosso artigo? Então, que tal continuar a sua jornada em busca de conhecimento? Leia mais um artigo e saiba como realizar práticas sustentáveis de consumo no seu dia a dia.

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